O absurdo morre apenas quando o ignoramos.
Camus, O Mito de Sísifo, 1942
O absurdo morre apenas quando o ignoramos.
Camus, O Mito de Sísifo, 1942
La Clameur du Silence
Dark Sanctuary, Les Mémoires Blessées, 2004
O homem é uma empresa que tem contra si o tempo, a necessidade, a sorte, a imbecil e sempre crescente primazia do número - os homens hão-de matar o homem.
Marguerite Yourcenar, A Obra ao Negro, 1968
(…)
O descabeçado, de cigarrilha na boca do estômago, expôs-lhe então com paciência burocrática:
- Ninguém pode seguir o caminho asfaltado que leva à Felicidade Completa sem se sujeitar a este programa bem óbvio. Primeiro: consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas. Segundo e último: trazer nos pés e nas mãos estas correntes de ouro…
João Sem Medo ouriçou-se numa reacção instintiva:
- Nunca! Bem se vê que não tens a cabeça no seu lugar.
- Realizada esta insignificante intervenção cirúrgica - prosseguiu o monstro imperturbável - ninguém te impedirá de gozar o resto da vida na boa da pândega e da abastança. E tudo de graça. Porque quem não tem cabeça não paga nada.
(…)
- Bem sei que podem perseguir-me, arrancar-me os olhos, torcer-me as orelhas, transformar-me em lagarto, em morcego, em aranha, em lacrau! Mas juro que não hei-de ser infeliz PORQUE NÃO QUERO.
Aventuras de João Sem Medo, José Gomes Ferreira
Sub Mare
É, e não é, ainda não enlouqueci,
Desde a tua chegada, este lugar volteia-me,
Este tecido de rosas outonais,
Agora num tom dourado, diferente.
E tacteio nestas teias, como delicadas
Algas que se estendem, sob
Pálidas lentas verdes cristas de onda,
Entre estas coisas mais antigas que os nomes que ostentam,
Estas coisas aparentadas a deus.
Ezra Pound, 1912
“C.S. Lewis (um escritor que deveria ser ensinado na escola) ilustrava a nossa dificuldade em compreender o Céu (o lugar da Eternidade, não o firmamento) como aquela de explicar a uma criança que um dia ela preferirá o sexo a chocolate. Um ateu é, portanto, um amante de chocolate permanentemente virgem. Na sua calórica ignorância tem todos os caminhos abertos para a felicidade excepto o dos orgasmos.”
Hoje vi um crepúsculo vermelho e amarelo e pensei: «Como sou insignificante!» É claro que também pensei isso ontem e choveu. Senti-me dominado pelo ódio por mim mesmo e pensei suicidar-me de novo - desta vez respirando fundo junto de um viajante de seguros.
Woody Allen, Sem penas, 1972
Ideia para um conto: Um homem acorda e descobre que o seu papagaio foi nomeado ministro da Agricultura. Sente-se consumir de ciúmes e dispara sobre si próprio, mas infelizmente a pistola é dessas que têm uma bandeirinha que sai com a palavra «bang» escrita. A bandeirinha arranca-lhe um olho, mas sobrevive - um ser humano redimido que, pela primeira vez, desfruta os prazeres simples da vida, tais como lavrar os campos ou sentar-se num tubo de ar.
Woody Allen, Sem penas, 1972
Os excertos seguintes foram retirados do até este momento secreto diário íntimo de Woody Allen, que deverá ser publicado postumamente ou depois da sua morte, de acordo com o que primeiro ocorra.
Woody Allen, Sem penas, 1972 (tradução de Salvato Teles de Meneses, 198 ![]()
O galo e a raposa
Empoleirado num sobreiro antigo,
Fazia um velho galo sentinela.
Uma raposa diz-lhe: «Irmão e amigo,
Venho trazer-te uma notícia bela.Nas nossas dissensões lançou-se um traço
E acaba de assinar-se a paz geral;
Desce, que quero dar-te um estreito abraço
E juntamente o beijo fraternal!»
- Amiga - diz-lhe o galo - folgo imenso;
Não podia esperar maior delícia!…
Vejo dois galgos a correr, e penso
Que são correios da feliz notícia.
Foge a raposa sem dar mais cavaco;
E o galo sentiu íntimo consolo.
Pois é grande prazer ver a um velhaco
Entrar espertalhão e sair tolo!
Tradução: J. I. de Araújo
« Des fois on a peur de mourir avant que la page soit pleine. »
Marguerite Duras

Aviso de Sócrates
Sócrates fez umas casas
De Atenas em certa rua,
Para nelas habitar
Coa pouca família sua.Que eram baixas uns diziam,
E outros bastante elevadas,
E em suma convinham todos
Em que eram muito apertadas.
«São apertadas, é certo
- Disse o sábio; - mas eu sei
Que de amigos verdadeiros
Cheias jamais as verei.»
É mais raro do que a Fénix
Um amigo verdadeiro:
Não há nome tão sagrado,
Que seja mais corriqueiro.
tradução: Curvo Semedo

Vão ao Apdeites, para quem ainda não conhece a história, e ao próprio blogue do Nelson Mendes.
É tão fácil ajudar…
O velho e a Morte
Um miserável velho se afligia
Com um feixe de lenha que trazia:
Jogou com ele ao chão, já de cansado,
E chamou a Morte, agoniado.Aparecendo-lhe esta, perguntava
Com que fim tão solícito a chamava.
«Rogo-te - disse o velho, de mãos postas -
Que me ajudes a pôr o feixe às costas.»
La Fontaine, tradução de Couto Guerreiro
A São Tantas desenterrou uma fábula deliciosa do Mia Couto que, de tão actual, até arrepia. Vão lá ler.
Tom Sharpe:
“Wilt em parte incerta”, o quinto volume da saga Wilt, pela Editorial Teorema. Só 17.85 euros
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