Arquivo da categoria 'Tradução'

06
Jul

Esta é uma das dezenas de canções do meu top 3

Led Zeppelin, Houses of the Holy, 1973 (The Rain Song)

Esta é a Primavera dos meus sentimentos - a segunda estação que conheço e tu és o sol do meu florir, tão pouco calor conheci até agora. Não é difícil ver-me brilhar, como o fiz com o fogo que lentamente desperta.
Este é o Verão dos meus sorrisos - fugi de mim guardiães das trevas! Fala-me apenas pelo teu olhar, é para ti que canto. Não é difícil perceber - de longe a longe todos o compreendemos.
Senti a frialdade do meu Inverno interminável e amaldiçoei as trevas que nos oprimem. Mas sei que te amo!
Estas são as estações da emoção e, como os ventos, vão e vêm. Esta é a maravilha da devoção - a tocha que nos encaminha. Este é o mistério da equação - sobre nós também a chuva tem de cair.

29
Jun

Pequenas canções em prosa XI

Jogo

De ti, me desuno e afasto da tua inércia… Avanço, ainda, nas cores dos teus fardos; cravo os meus pensamentos no teu rasto; no teu espaço, me perco.
Na proximidade do ser de quem sou refém apago os rastos do teu veneno, mas os espelhos vomitam a tua imagem. Mas os espelhos vomitam a tua imagem…
De ti, me desuno para apenas pensar em mim. Afasto-me da tua inércia e apenas penso em ti.
Assim, dispo-me da menor esperança, risco a tua boca e os teus olhos. O meu coração expele um ácido negro.
Na claridade de um muro entre nós não quero continuar a acreditar que sairei ilesa deste jogo. Que sairei ilesa deste jogo…
De ti, me desuno para apenas pensar em mim. Afasto-me da tua inércia e apenas penso em ti.

Mypollux, Contraires, 2006

22
Jun

I Need Some Sleep

Preciso de dormir, não posso continuar assim. Já tentei contar carneiros, mas há um que me escapa sempre. Toda a gente me diz como estou abatido; toda a gente me diz “tens de relaxar”. Tenho de relaxar. Preciso de dormir, está na hora de abrandar. Sinto-me soçobrar e o mundo não pára.

Eels, I Need Some Sleep (Shrek 2), 2004

01
Jun

Kiss

Um beijo ter-me-ia matado, não fosse a chuva. Um pressentimento anunciara-me a sua chegada; senti-o, ao longo do tempo. Chamem-me louco, que este louco pode, agora, morrer com o coração encharcado. Já o esperava.
Dá-me a mão, leva-me para a rua, raptemo-nos um ao outro cantando a nossa canção. O meu coração dança-me no peito e eu flutuo no encantamento do beijo. Deixa-me sonhar, com tanta paciência te esperei.
Não chores, não me desfaças o sonho. Deixa a chuva sublimar-nos enquanto a noite acaba e o vento nos envolve. Que maneira de atear o fogo, frio com o dealbar da manhã.


(Se) Não fosse a chuva.

Scout Niblett (Feat. Will Oldham), This Fool Can Die Now, 2007 (e mais uma tradução lateral minha).

23
Mar

Era Inverno


Ela dizia: “já caminhei demais, tenho o coração pesado de tantos segredos, tantas dores”. Ela dizia: “não continuo; o que me espera já o vivi. É inútil!” Ela dizia que viver é cruel, já não acreditava no sol nem nos silêncios das igrejas; e mesmo os meus sorrisos assustavam-na. Era Inverno no fundo do seu coração.
O vento nunca foi tão gélido, a chuva mais violenta que nessa tarde, a dos seus vinte anos. A tarde em que ela extinguiu o fogo por detrás dos seus olhos num clarão branco. Tenho a certeza que ela subiu ao céu, brilhando ao lado do sol, como as novas igrejas; mas se, desde essa tarde, choro é porque está frio no fundo do meu coração.

Francis Cabrel, Les chemins de traverse,  1979 

Feliz Páscoa!
10
Fev

Pequenas canções em prosa X

Por assim dizer, deixa que te diga: nunca esquecerei como me dizias tudo, sem falar. Por assim dizer, não percebo como o amor em silêncio se torna anátema, mas o que sinto por ti é indizível.
Dá-me as palavras que nada me dizem; dá-me as palavras que me dizem tudo.
Por assim dizer, a semântica de nada serve nesta vida remediada e as nossas emoções podem vir a ser sacrificadas. Por assim dizer, deixa que te diga: tal como tu, também eu encontrarei a forma de dizer-te tudo, sem falar.


Tuxedomoon, Holy Wars, 1985 - In a manner of speaking

30
Jan

Apeteceu-me II

The Sleepwalkers
De noite, este irracional exército, colunas sem uma única dissidência,
põe-se em movimento e a sua marcha não esmorece.
A cada passo, com toda a precisão, estes vultos da noite
avançam de encontro à escuridão - quão implacável é o seu poder!
(…)

Van der Graaf Generator, Godbluff, 1976

20
Jan

Bijou

Tu e eu. Estamos destinados - concordarás - a passar o resto das nossas vidas um com o outro; o resto dos nossos dias como dois amantes. Para sempre, sim, para sempre.
Minha jóia.

06
Jan

Sentado num banco de jardim, olhando as rapariguinhas com intenções inconfessáveis.
O ranho pinga-lhe do nariz e os dedos engordurados ensebam os seus farrapos. Aqualung!

06
Jan

Secando ao sol frio, espia as cuequinhas de renda a correr. Aqualung!
Sente-se um falhado, cuspindo os estilhaços da sua sorte. Aqualung!

06
Jan

O Sol alterna com o frio, o velho vagueia solitário
Escoando o tempo do único modo que conhece.

06
Jan

A perna gemendo de dor enquanto se baixa para apanhar uma beata.
Vai até ao jardim para aquecer os pés.

06
Jan

Sentindo-se só,
O Exército está na outra ponta da amarra: Salvação à la mode e uma chávena de chá.

06
Jan

Aqualung, meu amigo! Não fujas, meu pobre velho, sou só eu.
Ainda te lembras da geada nevoeirenta de Dezembro?
Os pingentes de gelo na tua barba gritam em agonia

06
Jan

E tu lutas pelos teus arfantes últimos suspiros como um mergulhador de águas profundas,
E as flores desabrocham como uma loucura de primavera.




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