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Por outras palavras

13/04/2009

A decência, finalmente

A notícia agitou no fim-de-semana a habitualmente pacata (hoje é um daqueles dias em que, como no soneto de Bocage, me acho mais pachorrento) comunicação social portuguesa.
O Estado, através da Agência de Modernização Administrativa, decidiu modernizar administrativamente as meninas da Loja do Cidadão de Faro e proibiu-as de usar saias curtas, decotes, saltos altos, perfumes “agressivos” (acho bem, perfumes armados e perigosos deviam estar sob a alçada da lei das armas; e sei do que falo que já tenho sido espoliado até por águas de colónia) e roupa interior escura. Descontando as cuecas e os “soutiens”, reservas ecológicas onde o Estado talvez devesse, mas que sei eu?, abster-se de edificar, o resto, juntamente com os processos a jornalistas, é já, tudo o indica, o primeiro passo da política de decência da sociedade portuguesa anunciada no Congresso do PS. Tinha que se começar por algum lado e começou-se pelas saias e decotes, que era o que estava mais à mão (salvo seja). A corrupção, o tráfico de influências e o enriquecimento ilícito que ponham as barbas de molho; um dia chegará a sua vez.

M. A. Pina, 13-4-09

E ainda:

Todos menos eu

Começo a ficar inquieto. Há 40 anos a escrever em jornais e nunca ninguém me processou. É uma nódoa no meu currículo e, nos tempos que correm – em que qualquer estagiário, mal tira o casaco e se senta pela primeira vez à secretária, já está a ser processado e com termo de identidade e residência – uma discriminação afrontosa e desprestigiante.
 Os outros jornalistas olham-me de soslaio e (ou será impressão minha?) mudam de assunto quando me aproximo. Mesmo agora que, contra minha vontade, tanto escrevo sobre política e susceptibilidades afins, pois que, chamando em meu socorro por Santa Szymborska, “a época é política” e “o que dizes tem ressonância,/ o que calas tem peso/de uma forma ou outra – político./ Mesmo caminhando contra o vento/ dás passos políticos/ sobre solo político”, continuo inexplicavelmente por processar e nenhum dos políticos meus conhecidos cortou comigo. Como na canção de Maria Bethânia, “todo o mundo vai ao circo / menos eu, menos eu” e “fico de fora escutando a gargalhada”. Pondero por isso, em defesa do meu bom nome profissional, passar a processar quem não me processar.

M. A. Pina, 8-4-09

2 comentários leave one →
  1. 13/04/2009 8:32 pm

    😆😆😆

    Por algum lado tinham de começar e devem achar que o pequenino é bonitinho… como num jogo de xadrez, primeiro comem-se os peões para dar o exemplo da estratégia de intimidação.

  2. 14/04/2009 12:00 am

    E já viste as iniciais de “Agência de Modernização Administrativa”? O Estado te…

    O Pina, além da poesia, da crónica e do teatro, é um magnífico humorista!

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