Skip to content

Para reflexão

05/06/2009

Os javalis andam à solta.
Eu repito:
Os javalis andam à solta.

Os pequenos patrões fazem os grandes rios de diamante.
Duas vezes.

As rosas da Europa são o festim de Satanás.
Eu repito:
As rosas da Europa são o festim de Satanás.

Estamos actualmente a trabalhar para a Europa.
Estamos actualmente a trabalhar para a Europa.
Estamos actualmente a trabalhar para a Europa.
Estamos actualmente a trabalhar para a Europa.
Mesmo para o mundo.

Cara velha Europa, querido velho continente, prostituta autoritária, aristocrata e libertária, burguesa e operária, em púrpura engalanada das gloriosas eras e dos colossos titubeantes. Repara nos teus ombros alquebrados. É impossível sacudir com um único gesto, um só, as velhas películas, as tuas peles mortas de outrora e tabula rasa… Vista daqui, poderíamos julgar ser mera podridão, nobre e em suspensão. Ainda flutua no ar este cheiro a enxofre.

Podre velha Europa, que, entre as duas guerras e mesmo durante, acariciava para sua satisfação o ventre dos países seus distantes domínios, regando as autóctones com o seu esperma.

Reerguemo-nos? Reerguemo-nos de qualquer coisa, mesmo de quedas sem fim.

Soubemos subir, soubemos descer, podemos parar e podemos retomar…
Europa das luzes ou das trevas, Europa das luzes ou das trevas, meros pirilampos num teatro de sombras. Um simples vislumbre na noite que cintila e, em seguida, se extingue e, em seguida, o novo amanhecer, após os crimes de infância, os erros de juventude. Já não se arrancam as asas às libelinhas de ouro.

Estamos actualmente a trabalhar para a Europa.
Mesmo para o mundo.

Amnistia, amnistia ou então amnésia, que quereis? De qualquer maneira, temos de avançar, estuguemos o passo, camarada, e, em seguida, executemos, executemos, ficará sempre alguma coisa, vamos! Materialista, pelo menos temos a certeza de não estarmos enganados; tangível até à indigestão; racional até rebentar; lógicas implacáveis, mas sem sentido nenhum…
Eia princesa da história na sua marcha forçada, acabamos por nos perder ao passar sob os teus arcos multiseculares.

Mesmo para o mundo.
Estamos actualmente a trabalhar para a Europa.

Estafados dos teus mistérios passados, estafados dos teus mistérios passados, estafados dos teus mistérios passados, de encantos tecnocratas…
Então a Europa, então a Europa, então a Europa, então.
Bruxelas, Schengen, Estrasburgo, Maastricht, o PIB, o PIB, CEE, Euratom, OCDE e GATT. Protejei-nos mercado desse AMI comum dum mundo tão pequeno.

Euro, moeda única, Nasdaq e CAC 40 (o PSI 20 lá do sítio), orgíaco, idílico, criai poesia, apoiai a cultura, produzi espectáculo e entertainment como dizem os nossos irmãos do outro lado do Atlântico e zás antigos europeus, novos donos do mundo enquanto o dragão asiático sonha, faz os seus alongamentos, ele é belo e poderoso, cospe fogo delicadamente.

Enquanto que Ernest-Antoine Seillière (o van Zeller lá do sítio, à época) faz a sua aparição e inflamadamente declara o seu amor por nós e diz: “Nós não somos como os políticos submissos à pressão da rua”.
E ouve-se ao longe rugir o clamor da multidão, as belas coreografias de conjunto, os desfiles gloriosos e, em seguida, a luta de classes.
E agora é a sério, meu pequeno, agora é a sério já não acreditamos em nada, construimos com todas as peças esta empresa e
Basta! Já não cavalgamos o Pégaso, isso era para o êxtase, e o êxtase acabou.
Ampliação, expansão, se possível, mas já não há sonho para empunhar, apenas dinâmicas.
Primeiro o atum bebé e o resto seguir-se-á, e o resto virá, é o que dizem, acho, nesta época abençoada dos globófagos.
Global Business Dialogue ou do Electronic commerce, sentados cacarejando sobre todas as excepções, a começar por essa coisa tipo cultural. ballets roses.
Duas vezes.
Quando as sirenes se calam, os predadores salivam.
Repito:
Quando as sirenes se calam, os predadores salivam.

Cara velha Europa, a tua cabeça mal conhece as tuas pernas que, muitas vezes, não entendem os teus braços, como é que funciona um corpo? Como funciona um corpo estranho ao seu corpo, ninguém sabe, ninguém quer saber, eles cumprimentam-se e, de qualquer maneira, estão cobertos de razão.

Podre velha Europa, lembras-te da força brutal, Ocidente mal parido, guerra escaldante, guerra fria, e, por fim, de guerra cansada, e, por fim, de guerra cansada.

Estamos actualmente a trabalhar para a Europa.

É isso que quereis? Ei-las as escolas de desempenho, ei-los os patrões criadores do

Histórias de produtores e consumidores, do produtor ao consumidor, do produtor ao consumidor, e intermediários a dar com um pau, toda a tua alma se desgastou neste percurso sem fim, neste vai e vem, vamos lá, nós também, aproveitar, porque não? Afinal funciona, chegará para todos, chegará para todos, nós dissemos chegará para todos, para todos e o c…!

Estamos actualmente a trabalhar para a Europa.
Mesmo para o Mundo

A que altura irás construir os teus muros? Até onde irás alargando as tuas barricadas?
Algo se atravessou na garganta e queremos cuspir, pelo menos, mas, minha senhora, pode entrar em contacto connosco, pois nem tudo está perdido, não! Nem tudo está perdido dos seus mitos de aurora, aqui o sol brilha para todos e acreditamos.

Estamos actualmente a trabalhar para a Europa.
Mesmo para o Mundo

Algo se atravessou na garganta e queremos cuspir, pelo menos, mas, minha senhora, pode entrar em contacto connosco, pois nem tudo está perdido, não! Nem tudo está perdido dos seus mitos de aurora, aqui o sol brilha para todos e acreditamos.

A varíola nas vossas trombas!
Repito:
A varíola nas vossas trombas!
Os suspiros da santa e os gritos da fada já não são ouvidos no banquete dos banqueiros.
Uma vez.
A marmita do eremita está cheia de rubis.
Repito:
A marmita do eremita está cheia de rubis.

A velha Europa é a proxeneta dos

O vermelho e o negro da tortura são as flores do mal.
Repito:
O vermelho e o negro da tortura são as flores do mal.
O dia do Ocidente é a noite do Oriente.
Duas vezes.
O dia do Ocidente é a noite do Oriente.
Eu não sou chauvinista
mas a França continua a ser a rainha do queijo.
Trifólio Girassol é um zuavo.
Seis vezes.

O sangue derramado é a guloseima dos gigantes da feira.
Duas vezes.
Chove a potes na
Concórdia.
Chove a potes na
Concórdia.
As jovenzinhas modelo são as eleitas da Europa.
Repito:
As jovenzinhas modelo são as eleitas da Europa.
Merda para a segurança!
Duas vezes.
A mania das grandezas é a morte do melro.
Repito:
A mania das grandezas é a morte do melro.
Se não consegue encontrar mais nada, procure outra coisa.

Paz na Suíça!
Repito:
Paz na Suíça!
As bodas de sangue incendeiam o horizonte.
Duas vezes.
O rimel da Europa escorre pelo peitilho das camisas.
Duas vezes.

A vida começa agora
e agora e agora.

A Europa é uma pequena deusa mortal.
Duas vezes.

A infância da arte é um nascer do sol.
Repito:
A infância da arte é um nascer do sol.

Estamos actualmente a trabalhar para a Europa…

Bertrand Cantat e Brigitte Fontaine, Noir Désir, Des Visages Des Figures, 2001

Original aqui.

(Tradução lateral e muito apressada, não revista, para aparecer ainda hoje. O som é já seguir.)

2 comentários leave one →
  1. 05/06/2009 10:02 pm

    Os javalis andam à solta. Por onde? Eu tenho-os encontrado, fossando, muito à minha beira… quase à porta… quase…. A minha sorte é que posso, calmamente, distanciar-me e dizer: Porra!

  2. 15/06/2009 8:19 pm

    Quando publiquei o original, há 3 anos, o que te chamou a atenção foi o final. Agora, foi o início… Para quando uma leitura integral, hein? É que vale a pena e encontrarás imenso “pano” para mangas.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: